O Nutricionista (responsável) na intervenção clínica

 

O juramento de Hipócrates diz “Faz do alimento o teu melhor medicamento” mas por vezes parece que este juramento é esquecido na nobre arte da prescrição farmacológica. A hipercolesterolémia é um dos casos mais frequentes dessa mesma violação de um princípio fundamental promotor de saúde e bem-estar. Este é um caso que ilustra de forma clara a importância da intervenção do nutricionista. 

Caso

  • Homem, 45 anos
  • 1,78m , 94Kg, perímetro abdominal de 110cm
  • Sedentário (joga à bola com os amigos 1x por mês)
  • Colesterol total 280mg/dl, HDL 50mg/dl, Glicémia normal , Triglicéridos 110mg/dl
  • Tensão arterial 135/87mmHg
  • Não fuma

Aparece na consulta porque tem excesso de peso e assustou-se com os valores de colesterol depois de umas análises do check up anual.

A solução dada por outro profissional de saúde: simvastatina , “vamos começar com 5mg/dia”. Os valores têm vindo a aumentar nos últimos 3 anos assim como a cintura…

 

O Nutricionista faz a história alimentar e tem este registo:

Peq almoço – torradas e galão, por vezes sandes mista no café e meia de leite

Meio da manhã – não come nada ou mordisca umas bolachas que tem sempre na gaveta, a empresa serve fruta mas não tem ido buscar

Almoço – na cantina, prato do dia (ex:. carne com massa, arroz de pato, empadão, rolo de carne, bacalhau à brás), come uma salada de frutas ou uma maçã assada, bebe um sumo do dia (aqueles sumos “naturais”) , bebe café e nem sempre resiste ao pastel de nata

Lanche – raramente come porque o almoço é sempre “forte” e fica cheio

Sai pelas 17h30/18h, está 1h30 no trânsito como qualquer bom português e quando chega a casa depenica pão quente com queijo ou manteiga (acabado de chegar da padaria) enquanto se faz o jantar

Jantar – sopa (gosta muito de sopa em casa) , prato normal e aqui come um pouco de tudo

Ceia – 1 copo de leite e por vezes umas bolachas

 

Diga-me sinceramente: não consegue encontrar 3 oportunidades de melhoria simples que não alterem de forma dramática a rotina mas que se tornem hábito? Só dependem de uma coisa: a vontade da pessoa de realmente promover saúde…

  • trocar bolachas da manhã por fruta e oleaginosas (nozes, amêndoas, cajus , não fritos, não salgados) , está à disposição, leva as oleaginosas e tem a fruta no trabalho. Qual? Varie o mais possível: maçã, pêra , uvas, laranja, tangerinas, etc.
  • incluir sempre hortaliças ao almoço e jantar, a regra de bolso seria: 1 sopa de hortaliças 1 salada, 1 pires de salada e 1 pires de verduras cozinhadas temperadas com azeite, vinagre, sal, pimenta e ervas aromáticas. Aqui o segredo é variar: cenoura, beterraba, tomate, feijão verde, etc. Nada de salada de alface e brócolos cozidos 24/7
  • inclusão de um lanche à saída do local de trabalho que pode ser igual ao da manhã mesmo que coma um pouco de pão (sim, controlo da porção) com uma dose bem medida de manteiga (a sério, a de pasto e não “coisas com sabor a manteiga”).

Aposto que esta pessoa sai da minha consulta e pensa: “esta tipa é doida, vou comer o mesmo, isto não vai resultar”. Vai tomar o medicamento , vai-se sentir no lodo durante 2-3 meses até desistir (e piorar) ou encarar uma dessas dietas de rádio…

Repare que o passo chave aqui não é a minha prescrição, porque eu tenho coisas muito simples que fazem diferença mas que a pessoa não leva a sério porque acha que isso de fazer um plano tem de ser mais complicado do que uma maquete de um foguete aeroespacial.

O passo aqui é a confiança da pessoa, porque prefere ouvir mais um fulano que lhe dá um comprimido do que um que lhe pede compromisso. Quando o limão arde na ferida, a culpa não é do limão… 

Agora volte a ler as contra-indicações das estatinas e faça a sua opção consciente… não me cabe a mim fazer essa escolha, é essa a dificuldade que todos enfrentam. O poder da decisão.

 

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